Reflexões de uma bióloga cristã a cerca dos transgênicos

Afinal, o que são os transgênicos? O que nós, como cristãos, precisamos saber sobre tema tão relevante, atual e polêmico? Políticos, cientistas, e população em geral parecem sustentar opiniões distintas ou no mínimo controvertidas a respeito.

Antes de nos posicionarmos contra ou à favor da produção e comercialização de transgênicos, precisamos compreender melhor o que significam, para o quê serão úteis algumas informações.

Primeiramente, gostaríamos de ressaltar que a atividade de lavrar a terra é uma incumbência divina ao homem, desde que foi criado. Diz a Palavra de Deus que o homem foi colocado no jardim do Éden para o lavrar e o guardar (Gênesis 2:15). Em Gênesis 2:4-5, lemos "Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados; no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus, e toda a planta do campo que ainda não estava na terra, e toda a erva do campo que ainda não brotava; porque ainda o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para lavrar a terra."

Desde épocas mais remotas, o homem aprendeu a buscar entre as plantas aquelas que continham características de interesse, como maior produção, resistência a pragas e doenças, tolerância a estresses ambientais, melhor fruto etc. Suas sementes eram guardadas e cruzamentos entre variedades eram realizados, a fim de que fossem obtidas plantas mais interessantes ao consumo humano. Isto de alguma forma já caracterizava uma manipulação genética dessas espécies, pois em situação natural tais cruzamentos não ocorreriam. Só a partir da intervenção humana, pelo processo até hoje utilizado, e denominado de melhoramento convencional de espécies, era possível obter plantas mais produtivas.

Em geral, os alimentos que encontramos nas prateleiras de supermercado, por mais manipulados e industrializados que sejam, apresentam na sua composição derivados diretos ou indiretos de vegetais. Em Provérbios 28:19, encontramos a mensagem: "O que lavrar a sua terra virá a fartar-se de pão, mas o que segue a ociosos se fartará de pobreza." Divina sabedoria...

Dados extraídos de fontes idôneas indicam que a tecnologia de produção alimentícia convencional, sozinha, não será suficiente para suprir as necessidades de alimentos de uma população estimada em 9,37 bilhões de pessoas, para o ano 2050. Devido a este incremento na população mundial, e conseqüente crescimento das grandes cidades, cientistas buscam incessantemente tecnologias que permitam um aumento na produtividade das culturas, para que áreas antes preservadas não sejam comprometidas.

A moderna biotecnologia, pelo uso de ferramentas de engenharia genética e, em particular, pela produção de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), tem grande potencial na geração de plantas com as características que o mercado precisa, no momento em que precisa. Em outras palavras, para que não haja escassez de alimento, a despeito da explosão demográfica mundial, precisamos investir em pesquisas nas áreas de avanço do conhecimento e notadamente, explorar as possibilidades que a engenharia genética oferece.

A grande inovação das técnicas modernas de engenharia genética é que tornam possível o isolamento de genes de interesse de uma espécie e sua inserção em outra, sem a necessidade de compatibilidade reprodutiva entre as mesmas. Assim, pode-se obter uma planta transgênica pela inserção de um gene de animal em seu genoma, por exemplo, sem maiores dificuldades.

Existem diversas metodologias para a produção de uma planta transgênica em laboratório, interessando apenas salientar que em qualquer delas, os segmentos de DNA (genes) que determinam as características de interesse são de alguma forma incorporados ao genoma (conjunto de genes) da espécie que se deseja melhorar. Os riscos de obtenção de produtos indesejados, nesta metodologia, estão relacionados a um possível erro na inserção do gene. Ou seja, a possibilidade de o novo gene se ligar num ponto errado no genoma, o que fatalmente resultaria em espécie transgênica com características desconhecidas e provocaria efeitos impossíveis de serem previstos em quem a ingerir.

Porém, existem vários testes para que seja confirmada a correta integração do gene ao genoma da planta, que se procedidos de maneira correta oferecem resultados confiáveis. É inegável que a produção de plantas transgênicas tem enorme potencial para beneficiar a agricultura, qualidade de alimentos, nutrição e saúde, mas é prudente que não sejam reduzidos os cuidados nos testes prévios ao lançamento de novas variedades geneticamente modificadas.

Além da soja tolerante a herbicida, talvez o produto transgênico de maior repercussão, já se encontram no mercado dos Estados Unidos vários outros produtos, como tomates com amolecimento retardado, pimenta com melhoria no sabor, cor e textura, amendoim, girassol e soja com modificação na composição do óleo, entre outros.

Os adventos na ciência e tecnologia em nada ferem nossos princípios cristãos. O que o homem tem feito em termos de inovações em biotecnologia são uma forma de expressão da sabedoria e capacidade cognitiva que Deus nos deu e que nos fazem diferentes dos demais seres vivos. Já imaginaram que retrocesso seria abandonarmos avanços da medicina tais como os transplantes de órgãos, transfusões sangüíneas, processos cirúrgicos cerebrais dos mais complexos, vacinas, etc? Ou será que, porque sabemos que Deus é quem determina o dia da nossa morte, deveríamos agora deixar de nos medicar e de recorrer às alternativas existentes para curar-nos, resultantes do progresso científico? Imagino que a sua resposta para estas perguntas seja, definitivamente, não.

Da mesma forma, não podemos fugir dos avanços em biotecnologia. Faz parte da natureza humana a busca do progresso científico, todavia esclarecimentos e discussões amplas e objetivas sobre o assunto devem ocorrer. Precisamos, como cristãos e cidadãos que somos, cobrar das nossas autoridades que todos os procedimentos de segurança sejam tomados e que OGMs sejam testados em todos os parâmetros necessários, antes de irem a mercado.

Patrícia Rocha Bello Bertin

Pesquisadora em Biologia Molecular

****************************************************
Pesq. II - Métodos Biomoleculares, Proteoma
EMBRAPA CAPRINOS
Estrada Sobral/Groaíras, Km 04, CEP 62011-970 - Sobral/CE
Telefone: (88) 677-7060 - Fax: (88) 677-7055
EmbrapaSAT: 63 7000
Voltar