AS OFERENDAS AOS SENHOR

 

A palavra oferta no singular ou plural aparece em 514 versículos no Antigo Testamento e em 24 versículos no Novo Testamento. Como em boa parte dos versículos ela é mencionada duas ou mais vezes, são mais de 600 citações.

A primeira citação ocorre em Gênesis 4:3 quando menciona que Caim ofertou ao Senhor do fruto da terra. A última citação no Antigo Testamento se encontra em Malaquias 3:8, quando o Senhor através do profeta acusa o povo hebreu no contexto daqueles dias de que é roubado nos dízimos e ofertas alçadas.

No Pentatêuco o vocábulo é mencionado 378 vezes. Sendo que em Levítico 181 e em Números 157 vezes. Em Jó e Sofonias é mencionada apenas uma vez. Nos Livros Históricos aparece 72 vezes, sendo que em II Crônicas aparece 16 vezes. Nos Livros de Sabedoria são 5 vezes, destes 4 em Salmos. Nos Profetas maiores são 44 citações, destas 26 está em  Ezequiel. Nos Profetas Menores são 15 citações, destes 7 em Malaquias.

Se examinarmos as centenas de textos que abordam o tema, chegamos a conclusão que a prática de ofertar ao Senhor instituída pelo próprio Deus por intermédio de Moisés e Josué no Pentatêuco e mais tarde pelos demais Sacerdotes, Rei Davi e alguns dos Profetas, foi algo marcante na vida do povo hebreu, de significado ímpar, alimentando a comunhão com Deus e acima de tudo obedecendo-o e fazendo a sua vontade.

À medida que Deus foi se revelando ao homem, através de sua Palavra, estava em curso a apresentação de seu plano de salvação, que mais tarde haveria de se consumar em Cristo na Cruz do Calvário. Jesus, o Cordeiro de Deus reservado desde a fundação dos séculos, com o propósito único e de uma vez por todas, fazer a maior das ofertas, jamais oferecida ao Senhor em sacrifício. O sacrifício de sua própria vida, para a expiação do pecado de todos os homens, tanto os do passado, do presente e como os do futuro, restaurando-os definitivamente para estar para sempre na presença de Deus. Sem mancha, sem defeito, sem ruga, sem mácula, santos e irrepreensíveis. (Hb 9:26; Ap 13:8; Jo 1:29; 17:24; At 8:32; I Pe 1:19-20; I Co 2:7; Ef 1:4; 3:9; Cl 1:26; Mt 25:34).

No Novo Testamento, a palavra no substantivo ou verbo aparece 24 vezes. Comparando-as com as citações nos textos em que aparecem no Antigo Testamento, verificamos que a conotação e o princípio não são mais os mesmos pelos quais foram introduzidos no passado.

A Graça de Cristo isentou-nos do rigor da Lei outrora outorgado por Deus aos Pais pelos profetas, de modo que Jesus  ao mesmo tempo que cumpriu a Lei isentou-nos para sempre dela, mediante o seu sangue derramado em sacrifício vivo e agradável ao Senhor (Hb 1:1; Ef 5:2). 

O livro de Mateus possui o maior número de citações no Novo Testamento, em 8 versículos, seguido de Hebreus em 6 versículos.

Jesus a pronunciou 10 vezes nos Sinóticos em oportunidades diferentes.

No Novo Testamento apenas 7 Livros a menciona o que corresponde a 24% dos livros. Na maioria dos livros não há nenhuma citação. Totalmente ao contrário do Antigo Testamento, onde 25 Livros a mencionam e em apenas 12 não aparece. O que corresponde a 67% dos livros. Estes dados comprovam o que já sabíamos com relação as práticas introduzidas por Deus sob a Lei e as evidências da liberdade em Cristo pela Graça.

A conotação dada no Novo Testamento, tanto por Jesus, como pelo Apóstolo Paulo e o Autor aos Hebreus, estava mais associada com as orientações da prática da Lei, principalmente quando Jesus as mencionou. O apóstolo Paulo menciona-a referindo-se também a prática da religião judaica (At 21:26). Quando fala em sua defesa perante Felix (At 24:17), mencionando as oferendas que fez no Templo quando foi acusado de profanação (At 24:6). Em Romanos 15:26 Paulo a menciona falando que os irmãos da Macedônia e Acaia mandaram ofertas para os irmãos em Jerusalém.

É bom lembrar que esta conotação é a mesma que praticamos hoje em nossas igrejas, tipo campanhas para ajudar outros irmãos ou comunidades cristãs carentes. Em Rm 15:16 a conotação de que os gentios são ofertas ao Senhor. Em Ef 5:2 Paulo a menciona dizendo — “a oferta do corpo de Cristo” e o autor aos Hebreus, no capítulo 10 versículos 10 e 14, como —“oferta e sacrifício a Deus em cheiro suave”. Estas foram a cosmovisão pela qual a palavra “oferta” foi mencionada no Novo Testamento.

Voltando ao Antigo Testamento, constatamos que as primeiras ofertas foram uma iniciativa deliberada ou voluntária dos irmãos Caim e Abel, que sentiram-se agradecidos a Deus, motivo pelo qual trouxeram-lhe ofertas de gratidão dos frutos da terra e do rebanho. (Gn 4:3; 4:4). É curioso notar que nestes dois casos a Bíblia não revela que Deus os pediu ou os orientou nesse sentido, mas, tudo nos leva a deduzir que eles sentiram o desejo de servir a Deus com suas primícias.

No Livro de Êxodo, Deus orienta Moisés como deve proceder para oferecer-lhe holocaustos e ofertas pacíficas das ovelhas e dos bois com a promessa de bênçãos (Êx 20:24).

Deus pede que se lhe ofereça oferta da ceifa e dos lagares (vinhais) e Deus pede a consagração dos primogênitos (Êx 22:29).

Deus pede uma oferta alçada de todo homem cujo coração se mova voluntariamente (Êx 25:2; 35:5; 35:29; I Cr 29:5).

Deus pede ofertas de ouro, prata e bronze (Ex 25:3; 35:5).

Deus encarrega o sacerdote Arão de levar as iniqüidades do povo perante ele em santa oferta para que eles sejam aceitos. (Êx 28:38).

O holocausto queimado sobre o altar é oferta com cheiro suave ao Senhor. (Ex 29:18).

Todos os que são alistados ou recenseados darão oferta ao Senhor (Êx 30:14).

No livro de Levítico, Deus dá orientação a Moisés para os procedimentos atinentes as ofertas do gado e das ovelhas (Lv 1:2, 3, 9, 10 e 13). Das aves: rolas e pombos (Lv 1:14 e 17). Dos cereais (Lv 2:1-2: 2:4-15). O gado oferecido em oferta deve ser sem defeito (Lv 3:1, 6).

A oferta do cordeiro (Lv 3:7-11). A oferta da cabra (Lv 3:12-16). A oferta do novilho sem defeito para expiação do pecado do sacerdote (Lv 4:3, 8, 14, 20 e 21).

Se o pecado do sacerdote foi notificado fará a oferta de um bode sem defeito (Lv 4:23-26).

Se o pecado do povo for notificado a oferta será uma cabra sem defeito (Lv 4:28-31). Nesse caso se trouxerem uma cordeira como oferta pelo pecado ela não deverá ter defeito (Lv 4:32-35).

As leis das ofertas (Lv 6:14; 7:1 e 7:11).

Moisés ofereceu holocausto e ofertas pacíficas ao Senhor (Lv 8:21; 27-29).

Samuel ofereceu holocausto e ofertas pacíficas ao Senhor após haver ungido a Saul Rei de Israel (I Sm 10:8).

O Rei Saul ofereceu holocausto e ofertas pacíficas ao Senhor (I Sm 13:9). Contudo, não o devia ter feito. Saul não era um Sacerdote e pela Lei de Moisés não poderia se arvorar no direito de fazê-lo ainda que as circunstâncias o exigisse, conforme Saul explicou a Samuel mencionando os três motivos que o levaram a fazê-lo:

Primeiro - Samuel demorava-se de chegar; Segundo - o povo hebreu estava se espalhando enquanto o povo Filisteu estava se reunindo e era eminente um ataque; Terceiro - a busca da benevolência de Deus para receber a vitória para o povo de Israel (I Sm 13:10-12).

A sua ansiedade o levou a pecar. Deus não recebeu o holocausto e ofertas de Saul, apresentadas em circunstâncias de pecado. A desobediência levou-o a não guardar o mandamento que o Senhor, Deus o havia ordenado. Saul perdeu a maior bênção de sua vida. Segundo Samuel, Deus confirmaria o Reino de Saul sobre Israel para sempre naquela oportunidade. Por causa do pecado o reino de Saul já não subsistiria.

Deus ordenou a Samuel ir em busca de um homem que lhe agrade.  (I Sm 13:13-14). Diga-se de passagem que Saul cometeu quatro pecados abominantes diante de Deus:

Primeiro – constituir-se Sacerdote como vimos;

Segundo – poupar Agague, rei dos amalequitas que Deus havia ordenado destruir totalmente juntamente ao povo e animais (I Sm 15:18). Mas o melhor das ovelhas, o melhor dos bois, os animais mais gordos, os cordeiros e o melhor que havia foi poupado por Saul (I Sm 15:2-9). A Palavra de Deus veio a Samuel dizendo: - “... arrependo-me de ter constituído Saul rei, porquanto deixou de me seguir e não escutou as minhas palavras”. Esta Palavra entristeceu Samuel de tal modo, que segundo o texto bíblico, ele não dormiu nesta noite e durante todo o tempo clamou ao Senhor. Mais uma vez Deus confirma que tirará o reino de Saul (I Sm 15:23). Samuel confessa o seu pecado, pede perdão e pede também a Samuel que siga com ele para que ele adore ao Senhor. Saul estava angustiado com o seu pecado. Queria o perdão de Deus que em sua infinita misericórdia o concedeu. (I Sm 15:24:31).

Terceiro – Saul em seu desespero diante do exército dos filisteus consulta uma médium para que faça subir da terra a Samuel que já havia morrido (I Sm 25:1) para consultá-lo sobre a peleja. (I Sm 25:5-20).

Quarto - Saul diante do desespero da guerra perdida pede a seu o escudeiro que o mate para que os incircuncisos filisteus não o traspassem à espada e escarneçam dele. Seu escudeiro se recusou. Saul então atira-se sobre a sua própria espada e suicida-se (I Sm 31:1-7). 

O Rei Davi ofereceu holocausto e ofertas pacíficas ao Senhor (II Sm 6:17-18; I Cr 21:26).

Três vezes por ano o Rei Salomão oferecia holocaustos e ofertas pacíficas ao Senhor (I Rs 9:25).

O povo ofereceu holocausto e ofertas pacíficas ao Senhor (Juízes 21:4).

Pelo exposto a vida do povo hebreu e de seus Juízes, Reis, Sacerdotes e Profetas, estavam voltados para o cumprimento da Lei para a expiação do pecado, tanto do povo, como dos sacerdotes e dos Reis. O holocausto e as ofertas pacíficas aplacavam a ira de Deus que recaia sobre todos os que desobedeciam e cometiam iniqüidades.

Deus deu a Moisés, para transmiti-los aos sacerdotes e ao povo em geral todos os procedimentos que deveriam ser adotados em seus mínimos detalhes, para que pudessem eximirem-se de suas faltas mediante a estrita obediência a orientação do Senhor.

A idade, a espécie e não ter defeito eram pré-requisitos para os animais a serem oferecidos em holocausto e em ofertas pacíficas.

Devemos mencionar também que a vida do Sacerdote e de sua família era consagrada a causa de Deus. Viveriam da porção que lhes caberia das ofertas nos sacrifícios e holocaustos oferecidos ao Senhor. Para tanto deveriam ser observados os requisitos estipulados na Lei, quanto as partes do corpo do animal a serem utilizadas etc. (Dt 18:1).

O holocausto pertencia à classe dos sacrifícios expiatórios dos pecados. Sacrifício de ação de graças se constituía em ato de adoração. Os holocaustos e as ofertas pacíficas eram sacrifícios voluntários. Eram diferentes dos sacrifícios pelo pecado, pois estes eram obrigatórios e tinham que ser apresentados de maneira uniforme e sistemática.

As ofertas de manjares e as ofertas de paz ou pacíficas, exprimiam geralmente a idéia de homenagem, dedicação própria e ação de graças. Já os sacrifícios pelo pecado tinham a idéia de propiciação.

 

Augusto Bello de Souza Filho

Bel. em Teologia

 

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