DA IDADE MÉDIA PARA A NOVA ERA

        Uma das idéias-força da Nova Era é a idéia da unidade de tudo. “Tudo é um”, sustentam seus seguidores impulsionados pela teoria do big bang, segundo a qual uma grande explosão em meio ao infinito nada deu origem a tudo sem fim. Da urtiga a Paulo Coelho. Bum! Tudo é um!

        O big bang é uma teoria, e como todas as teorias tem vigência até que surja outra melhor. Já o “tudo é um” da Nova Era se compraz em conseqüências filosóficas. É um o masculino e o feminino, é una a essência energética do universo, são um só o bem e o mal, o positivo e o negativo. Um só governo para o planeta. Uma só e mesma coisa o Criador e as criaturas. Deus e eu, eu e Deus, partida empatada.

        Mesmo estas conseqüências filosóficas seriam apenas engraçadas se não produzissem efeitos vitais: o pecado deixa de existir, a sexualidade se torna uma questão de oportunidade e opção, família passa a ser uma indesejada célula de desintegração e individualismo, a globalização precisa ser levada às últimas conseqüências e por aí afora. Idéias novas, surfando na crista da onda da modernidade cultural e tecnológica?

        Não. Há oitocentos anos surgiu em Paris um professor de teologia, chamado Amaury de Bène. Tomando ao pé da letra a idéia de que Deus é tudo, Amaury deduzia que “tudo é Deus” e que, portanto, todos participamos da divindade de Cristo e somos encarnação do Espírito Santo. Filosofando assim, ladeira abaixo, chegava à conclusão de que os sacramentos são supérfluos e de que o pecado é tão impossível ao homem quanto o é para Deus.

        Tendo encontrado pela frente um Papa com a firmeza de Inocêncio III, Amaury desistiu de propagar essas heresias mas seus discípulos as levaram para a Universidade de Strassburg onde deram origem aos Irmãos do livre espírito. Estes, de excesso em excesso, passaram a pregar o fim de toda a autoridade, o fim do casamento e a formação de comunidades de esposas para que o Espírito provesse tudo a todos. Segundo Daniel-Rops (A Igreja das Catedrais e das Cruzadas), o grupo se desmembrou em vários ramos: os turlupins de Paris, os adamitas da Áustria, antepassados dos nudistas, e os luciferinos de Magdeburgo, que se entregavam à feitiçaria.

        Pois é. A Nova Era traz como novidade cultural algumas das idéias mais destrambelhadas da Idade Média.

Percival Puggina

www.puggina.org

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