Gay em nome de Deus Timóteo Lopes
13/09/04
Que o chamem de pastor gay! Aos 28 anos, o
carioca Marcos Gladstone oferece biblicamente a outra face ao ouvir rótulos e
zombarias, convencido de que sua missão, a causa gay, é uma causa
revolucionária. “Enquanto houver uma única igreja cristã batendo a porta na
cara de quem ousa ter uma orientação sexual diferente, eu não desisto”,
proclama ele. “As igrejas não podem mais ser trincheiras da homofobia, pois
Deus é amor, não discriminação.” Guerra é guerra, prega o jovem pastor. Há
três meses, ele instalou num velho sobrado da Lapa, no centro do Rio de
Janeiro, a primeira barricada da Igreja da Comunidade Metropolitana no Brasil,
desfraldou a coloridíssima bandeira do movimento homossexual e - surpresa das
surpresas, para ele próprio - lidera um número de fiéis que a cada culto
dominical só aumenta. Fundada em 1968, em Los Angeles, por Troy Perry, um
pastor que escandalizou sua igreja pentecostal ao arrombar o armário da
própria homossexualidade, a ICM tenta há mais tempo conquistar o coração de
gays argentinos e mexicanos, mas em suas cerimônias religiosas mal consegue
reunir alguns poucos gatos pingados.
No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro,
é diferente, melhor. Já conta com cerca de 300 seguidores e, embora a maioria
deles tenha perfil e endereço suburbanos, há juízes, artistas e profissionais
liberais de nível universitário. “Aqui, eles encontram um Deus que não cobra,
não proíbe, não pune, mas os acolhe e os aceita”, diz Gladstone. “Aqui, todos
encontram um Deus que incentiva a harmonia e a comunhão e diz a cada um de nós
que a nossa sexualidade é uma benção e que o amor vale a pena.” Não fosse a sobriedade do traje clerical,
Marcos Gladstone poderia ser facilmente confundido com um corretor da Bolsa de
Valores, um jovem ator de telenovelas ou um estagiário do Palácio da Justiça.
A última alternativa é a mais aproximada. Advogado especializado em defesa do
consumidor, ele conta que, desde a infância, quando freqüentava os cultos da
Igreja Congregacional, sentia que sua vocação apontava para o púlpito de um
templo. Queria ser um reverendo, um pastor de almas. Por volta dos 14 anos,
porém, passou a identificar no corpo de outros rapazes o objeto de seu desejo
sexual, conheceu o desespero e pensou ter chegado ao fim a sua aspiração
religiosa. “Achei que estava doente e implorei a Deus pela minha cura”,
relembra. “Os pastores que procurava me enganavam, dizendo que o que eu sentia
era um sentimento passageiro, ia passar...”
Não passou. Tentou dissimular sua libido
correspondendo ao assédio das meninas de sua idade, ficou noivo, até que, aos
23 anos, foi levado por um amigo a uma boate GLS de San Francisco, na
Califórnia. Quando viu um homem beijar outro homem na boca, lhe bateu um
mal-estar e, quase ao mesmo tempo, uma reflexão reveladora. Ofuscado pelo
incessante piscar de luzes, pela ensurdecedora batida tecno e pelas cores do
arco-íris espalhadas pela casa, Marcos Gladstone encarou a si mesmo.
“Compreendi que ser homossexual era o meu destino e que, por mais que tentasse
fugir desse destino, ele acabaria me alcançando.”
Descobriu na Internet a existência da Igreja
da Comunidade Metropolitana, que dirigia as antenas para gays e lésbicas,
traduziu seus textos para o português e criou um site anunciando a boa nova
aos homossexuais brasileiros. Matriculou-se num curso de Teologia e passou um
tempo na sede da ICM nos Estados Unidos, até que, em maio do ano passado, foi
ordenado pastor. O pior dos constrangimentos que esperava passar foi o mais
sublime. Acreditava que, ao declarar sua opção sexual à família, se tornaria
um órfão de pais vivos e criaria uma situação do tipo “onde foi que erramos?”,
mas nada disso aconteceu. “Com serenidade e compreensão, meu pai e minha mãe
me ouviram, me abraçaram e me disseram que me amavam ainda muito mais.”
Era o que Marcos Gladstone precisava para
assumir uma posição de linha de frente na causa homossexual. No templo
improvisado da Lapa carioca, ele é o ombro, a palavra amiga, o que ouve
histórias em que o enredo é abarrotado de desprezo e marginalização. Quase
todos os fiéis vêm de lares protestantes e muitos deles tentaram a “cura”
através do Moses (Movimento pela Sexualidade Sadia), uma espécie de SUS da
homossexualidade mantido por muitas igrejas evangélicas. “É uma monstruosidade
o que muitos que se dizem cristãos estão fazendo com os homossexuais”,
denuncia. “Alguns são ofendidos e humilhados ao serem obrigados a confessar
sua opção sexual diante de toda a congregação, que passa a tratá-los como
seres abjetos, desprezíveis.”
Tanta obstinação rende ao jovem pastor o
tratamento que só é dado a uma celebridade. Marcos Gladstone é reconhecido em
teatros ou restaurantes e quando, por exemplo, estende sua toalhinha nas
areias em frente à rua Farme de Amoedo, na praia de Ipanema, é mais assediado
e reconhecido do que um Calvin Klein – que, há poucos dias, andou dando o ar
de sua graça no mais borbulhante reduto gay do Rio de Janeiro. Os louvores lhe
vêm de todos os lados, especialmente das entidades que defendem os direitos
dos homossexuais. “Ele prega a mensagem de que o amor de Deus é supremo e
aceita todas as criaturas, sejam hétero ou homossexuais”, elogia Cláudio
Nascimento, presidente do Grupo Arco-Íris. “Enfim, um pastor abre a porta de
uma igreja e diz que Deus nos aceita e também nos ama”, complementa Raimundo
Pereira, do Grupo Atobá.
Mas, no meio do caminho, também tem pedras e
pedradas. Autor de um projeto-de-lei que prevê a criação de um programa de
auxilio a todos aqueles que quiserem deixar de ser homossexuais, o deputado
Édino Fonseca (PSC) torce o nariz, desdenha de uma igreja e um reverendo gay.
“É oportunismo de alguém querendo adquirir notoriedade e dízimos”, afirma
Fonseca. Também pastor da Assembléia de Deus, o dublé de deputado garante que
sua igreja e a de outros pastores estão cheias de fiéis que querem abandonar
as práticas homossexuais. E bate o martelo: “Um pastor que se declara
homossexual e se orgulha disso não serve para ser um ministro de Deus.”
Para sublinhar sua tese e, ao mesmo tempo,
retirar dela e de si próprio qualquer traço de homofobia, o pastor e deputado
Édino Fonseca não hesita em usar e abusar das sagradas palavras da Bíblia.
Exemplos não lhe faltam. A história de Sodoma e sua destruição é a mais
emblemática condenação ao comportamento homossexual. Até hoje, a palavra
sodomita é associada ao ato sexual entre dois homens. Em algumas passagens,
como as do “Livro de Levítico”, a homossexualidade sofre todas as abominações.
“Não te deites com um homem como se deita com uma mulher. Isto é um ato
infame”, prega uma delas.
Com outras lentes, no entanto, a Igreja da
Comunidade Metropolitana faz uma outra leitura. Assegura que muitas das sete
mil traduções que rodam o planeta são homofóbicas. Por isso, o pastor Marcos
Gladstone abre o mesmo livro sagrado para ler em voz alta alguns trechos que
sublimam o amor entre iguais. No “Novo Testamento”, refugia-se no “Evangelho
de Lucas” e mostra o trecho em que Jesus Cristo atende o pedido de um
centurião que implora pela cura de seu servo mais querido. O jovem reverendo
tem mais munição e eleva o tom quando chega ao “Velho Testamento” e no
“Segundo Livro de Samuel” encontra Davi derramando lágrimas sobre o corpo
morto de Jônatas. E lê, com ênfase, as palavras de Davi: “Eu me angustio por
ti, meu irmão Jônatas; tu és muito querido para mim! Teu amor para mim vale
mais do que o amor das mulheres.”
Certo de que está apenas na primeira curva
da causa que decidiu abraçar, Marcos Gladstone fecha a Bíblia com a mesma
resignação com que fecha os ouvidos da cabeça e do coração quando o chamam de
pastor gay.
Revelação em San Francisco
Discussão bíblica