A REFORMA CATÓLICA NA ESPANHA

 

A reforma católica foi um movimento que ocorreu na Espanha sob o reinado de Carlos V e da rainha Isabel, tendo sido denominado também de “Contra-Reforma”.

Quando falamos em reforma pensamos logo e tão somente nos vultos mais destacados como Lutero, Calvino, Zwinglio e Erasmo de Roterdã, e na maioria das vezes deixamos de lado os Reis Católicos da Espanha, principalmente na pessoa da Rainha Isabel e seus colaboradores, que tiveram participação preponderante na reforma católica que teve o seu início na Espanha, muito antes do protesto de Lutero.

Com a morte de Henrique IV que era meio irmão de Isabel, esta e seu esposo Fernando, herdaram a coroa de Castela. Nessa época era grande o anseio pela reforma da igreja católica na Espanha, uma vez que durante os anos que antecederam a morte de Henrique IV, houve um amplo recrusdescimento de práticas nefastas e danosas a igreja cristã, o que não diferenciava a Espanha dos fatos semelhantes que aconteciam em outros países da Europa, onde os bispos se tornaram mais guerreiros do que pastores e cada vez mais envolvidos com problemas políticos.

Essas práticas não buscavam a melhoria ou benefícios para os rebanhos que os bispos tinham sob os seus cuidados pastorais, mas o que os oficiais da igreja cristã buscavam era a satisfação pessoal, na solução de seus próprios interesses políticos e econômicos.

A maioria dos sacerdotes eram ignorantes e não eram capazes de responder as mais simples perguntas religiosas formuladas por seus paroquianos. A própria missa se tornara uma farsa porque nem mesmo aquele que a proferia sabia o que estava dizendo.

Outro problema que afligia a igreja espanhola era a má distribuição dos recolhimentos efetuados, porque, quem mais se beneficiava era o alto clero, enquanto que os sacerdotes passavam necessidades e pobreza humilhante, sem nenhuma condição de se dedicarem exclusivamente aos trabalhos pastorais.

Nos conventos e mosteiros a situação não era muito diferente, enquanto alguns se dedicavam totalmente em cumprir suas obrigações religiosas, outros cruzavam os braços querendo levar vida fácil. Estas casas religiosas não eram governadas segundo as regras da igreja, mas segundo as regras dos monges e das madres da alta esfera. Em muitos casos se descuidavam da oração e da meditação, que supostamente deveria ser a ocupação principal dos religiosos. 

O celibato já não era mais observado. Muitos bispos tinham filhos bastardos que se misturavam com os filhos da nobreza, reclamando muitas vezes o sangue de que eram herdeiros. Para se ter uma idéia Dom Pedro Gonzáles de Mendonça, arcebispo de Toledo, tinha dois filhos bastardos. Enquanto isto se verificava no alto clero; no baixo clero os padres paroquianos viviam abertamente com as suas concubinas e seus filhos. Muitos sacerdotes chegaram a ter filhos com mais de uma mulher. A ética e a moral da igreja estavam abaladas.

Isabel era a herdeira legítima do trono e juntamente à Fernando formavam uma dupla distinta, com relação a vida eclesiástica e religiosa de Castela. Enquanto Fernando estava mais preocupado com seus ideais políticos, Isabel estava voltada para a devoção e oração. Enquanto Fernando se preocupava com o crescimento do poder dos bispos, que cada vez mais se convertiam em grandes senhores feudais, Isabel estava preocupada com o crescente escândalo no meio do clero. Consequentemente, quando os interesses políticos de Fernando coincidiam com os propósitos reformadores de Isabel a reforma marchava adiante. E, quando não coincidiam, Isabel fazia valer sua vontade em Castela e Fernando em Aragão.

Isabel estava definitivamente convencida da necessidade de reformar a igreja em seus domínios a partir do alto clero, e o único modo de faze-lo era tendo à sua disposição a nomeação daqueles que deveriam ocupar os altos cargos eclesiásticos, pelo que juntamente à Fernando obtiveram de Roma o direito às nomeações. Ao colocar em prática essas medidas a coroa de Castela se fortaleceria também politicamente, à medida que conquistasse a lealdade dos prelados.

De todas as nomeações que Isabel fez a mais significativa foi a de Francisco Ximenez de Cisneros, a quem fez arcebispo de Toledo. Cisneros era frade Franciscano  em  que  se  combinava pobreza, austeridade e o humanismo erasmista. Se dedicou ao estudo do hebraico e aramaico, tendo se tornado conselheiro e confessor da rainha Isabel, motivo pelo qual contou com a sua simpatia para a indicação do seu nome à Roma, para a ocupação do cargo de Cardeal de Toledo, tendo se tornado conhecido mais tarde como “o grande reformador da igreja espanhola”.

A reforma católica na Espanha teve início nos conventos, pelo que Isabel se ocupava das casas das religiosas, fazendo trabalhos manuais e convivendo com elas para tomar conhecimento do que estava sucedendo em cada local. Se encontrasse algo fora do lugar, dirigia-lhes palavras de exortação e particularmente encorajava-lhes a guardarem a mais estrita clausura. De modo geral Isabel sempre obtinha êxito em seus propósitos. Contudo, se tomasse conhecimento de que algum convento não havia melhorado sua disciplina apesar de suas exortações, apelava à autoridade real, e passava a aplicar penas mais severas.

Cisneros se encarregou de cuidar dos monges e frades, usando métodos mais duros e exigindo que se tomasse medidas reformadoras fazendo valer a sua autoridade. Estes métodos criaram inimigos a Cisneros, fazendo com que cônegos de Toledo e alguns franciscanos encaminhassem denúncias para Roma, que terminaram por não surtir nenhum efeito porque a rainha interveio, obtendo de Roma, não só permissão para continuar a reforma, como também concedendo-lhe autoridade para faze-lo de modo mais eficiente. 

  No curso da reforma Isabel se convenceu de que a igreja tinha necessidade de dirigentes melhor adestrados, pelo que se dedicou a fomentar os estudos. Ela mesmo, era uma pessoa erudita, conhecedora do latim, pelo que se juntou a outras mulheres de dotes semelhantes. Desse modo, com a concordância de Fernando, Isabel incentivou o desenvolvimento da imprensa na Espanha que logo se iniciou em Barcelona, Saragoça e em outras grandes cidades espanholas, contribuindo decisivamente para a reforma religiosa dentro do estilo humanista. Foi lamentável que Isabel não tenha vivido para contemplar esta parte significativa da reforma pelas quais tanto lutou, que foram a Universidade de Alcalá e a Bíblia Poliglota Complutense, que se tornaram sem nenhuma sombra de dúvida no grande resultado da reforma católica na Espanha.

Ao receber a impressão completa da Bíblia, Cisneros assim se pronunciou: “...esta edição da Bíblia que, nestes tempos críticos, abre as sagradas fontes de nossa religião, das quais surgirá uma teologia muito mais pura que qualquer que tenha surgido de fontes menos diretas”. Esta afirmação clara da autoridade das Escrituras sobre a tradição, se tornou rapidamente em uma das teses principais dos reformadores protestantes.

 

AVALIAÇÃO

 

A reforma católica na Espanha visou corrigir distorções que existiam no seio da Igreja Católica, que se achava muito distante de suas tradições. Não constatamos a introdução de alterações em seus dogmas, que buscassem a prática do cristianismo dos primórdios da igreja cristã. Contudo, a reforma de Isabel tornou-se uma prova contudente de que era possível introduzir-se reformas mais profundas no seio da Igreja Católica como todo – o que veio acontecer através dos grandes reformadores como Lutero, Calvino e outros.

 

Augusto Bello de Souza Filho

Bacharel em Teologia

bello@correioweb.com.br

 

BIBLIOGRAFIA

 

- Gonzalez, Justo L., “Uma História Ilustrada do Cristianismo”, 1ª Edição, 1984, Sociedade Religiosa Edições Nova Vida, São Paulo - SP.

 

- A. Tucker, Ruth, “...Até aos Confins da Terra”, 1ª Edição, 1986, Sociedade Religiosa Edições Nova Vida, São Paulo - SP.

 

- Grimberg, Carl, “História Universal - As Descobertas Geográficas”, Edição Especial, 1989, Sociedade Comercial Y Editorial Santiago Ltda, Santiago - Chile.

 

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